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terça-feira, dezembro 1, 2020
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Burberry, Boss, Zegna: como a elite da moda quer vestir o mundo pós-covid

O que você vai precisar vestir quando a vida voltar a um estado aparente de normalidade? Para algumas pessoas, a casa ainda será o ambiente de trabalho, mas para a maioria, o escritório e o asfalto voltarão a ser palcos para o vaivém diário. As semanas de moda internacionais só terminam na próxima semana em Paris, mas Nova York, Londres e Milão já deram o tom do que as vitrines do hemisfério norte irão apontar já no próximo verão de lá o que será vestível no cotidiano pós-covid.

Parece ter sido exatamente essa realidade, entre o relaxo e a formalidade, o ponto de partida para as coleções das grifes mais conhecidas do mundo, como Burberry, Boss, Zegna e Prada. A lista dos desfiles é enorme, mas em comum a eles está o verniz prático, algo utilitário, para jogar a escanteio as bases opacas de básicos que, a Exame apontou logo no início da pandemia, viraram uniformes de dormir, trabalhar, cozinhar e viver o recolhimento.

Em vez da rigidez da alfaiataria clássica, os homens poderiam optar por parcas, ou até paletós, mais ampliados como os que a Boss apresentou em Milão. É possível que a vida exija flexibilidade, então cordas de amarração, bolsos pelo torso e até camisas decotadas, que podem ser fechadas a depender da agenda do dia, apareceram na ala masculina do desfile.

As mulheres não precisam se preocupar tanto com os saltos, porque assim como em outras propostas, os calçados baixos, que na Boss são as papetes tipo Birkenstock, devem encher as lojas e as cartilhas de certo e errado difundidas por aí. Os tecidos são mais leves, há o brilho do cetim, da seda, cujo contraste lembra e muito a febre das roupas de dormir que já rondavam as passarelas.

Há menos preto, porque a ideia é despir o luto recente, e há mais verde-água, rosáceos e azul claro. Assim como fez a Burberry, que abriu a semana de Londres convidando os espectadores de seu desfile virtual a entrarem na floresta onde a marca apresentou sua coleção de verão 2021 em que o azul profundo do índigo tingiu parte da coleção.

Há muitas desconstruções complexas nas propostas do estilista Riccardo Tisci, mas ele chama atenção para como as roupas podem ser amarradas, desmembradas e, por isso usadas, de forma diferente a depender da necessidade da cliente.

Fachada de loja da Hugo BossGrigory Dukor/Reuters

A jardineira pode ser usada solta, mas também formalmente por baixo de um trench cortado como fraque em couro bicolor nos mesmos tons de azul do jeans.

Ideia similar a de um casaco pesado em tom cinza bem claro que muda completamente se o véu de pedrarias for aplicado por cima e usado por cima do vestido de gola alta de tecido fino, transparente. O jogo aqui é usar dois pesos diferentes, leves por baixo, pesados por cima. Sempre com um ponto de cor mais vivo sobre tons neutros por baixo.

Essa relação de praticidade é levada a um nível ainda maior para a grife Ermenegildo Zegna. Ela desfilou em julho, na semana de moda masculina virtual de Milão, num cenário de campos verdejantes que tem proposta similar à da Burberry em resgatar essa relação do homem com o que é natural.

Por isso, os tecidos puros, da napa ao cânhamo, da lã extraída de suas fazendas de Trivero ao linho mais leve do mercado, compuseram um sinfonia entre alfaiataria e roupa casual.

A Zegna defende um estilo de vida mais solto, com ombros caídos, camisetas de tricô descoladas do corpo e peças com zíperes suntuosos para abrir e fechar partes da roupa para climas irregulares. Também por isso há uma predileção do estilista Alessandro Sartori pela parte de cima mais aberta no colo, às vezes lançando mão das golas “mao”, aquele tipo japonês que confere versatilidade e formalidade na mesma medida.

Alessandro Sartori, da Ermenegildo ZegnaErmenegildo Zegna/Divulgação

Talvez a grife mais querida entre os poderosos do mundo, a Zegna continua a querer vender um estilo de vida menos calcado no preto, marinho e cinza chumbo, oferecendo tons de mostarda, nuances de caramelo e pontos de verde musgo no dia a dia.

A tarefa é hercúlea se considerados os 110 anos de história nos quais a marca italiana se esforçou para ser epítome de masculinidade sóbria. Mas ela enfrenta o desafio porque os tempos são outros, os jovens executivos usam mais cores, tentam transmitir empatia por meio da roupa e suas abotoaduras são mais itens de diversão do que signos de poder.

Esse tom de novo uniforme conduziu a estreia mais aguardada desta temporada de moda. O estilista belga Raf Simons, que ditou os rumos da alfaiataria moderna em sua época na Jil Sander, renovou o guarda-roupa da Dior e devolveu à Calvin Klein prestígio estético, se uniu à estilista Miuccia Prada numa primeira colaboração para a marca que leva o sobrenome dela.

O resultado é uma coleção extremamente utilitária, em que, por exemplo, os bolsos são colados nas costas para deixar limpa a imagem da frente dos casacos milimetricamente costurados –a escola belga de moda tem primazia pela essa alfaiataria que beira à perfeição.

Ângulos, linhas e o formato do triângulo que identifica o logo da Prada foram estampados, mas também diluídos nas saias em “A”, nos detalhes das golas pontudas e até na forma como as modelos seguravam os casacos, em que a mão era um das pontas e os ombros as outra duas.

Há abrigos do tipo esportivo sobrepostos a vestidos, que quando usados com saias chegam até abaixo da cintura, e também propostas de casacos casulo, arredondados e volumosos, que por cima de bases neutras de lã jogam com o sentido de troca e destroca para um dia de trabalho, onde quer que ele esteja. É o novo uniforme do dia a dia, prático, preciso e de provável bom gosto para um número considerável de mulheres adeptas da simplicidade.

Prada traduz o conceito de uniforme menos descartável, uma ideia que boa parte deste calendário internacional tenta costurar e o mundo, é possível, queira vestir a partir de agora.

 

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